Jovens e Adolescentes – Ensinando e Aprendendo Educação Financeira

Ensinar jovens, adolescente por si só já é um desafio. É preciso considerar as mudanças corporais que esta fase vida provoca, à realidade individual de cada sujeito, às orientações e exigências da Base Nacional Comum Curricular e agora colocar a Educação Financeira – EF neste contexto todo.

Nada Fácil! Mas entendendo o perfil fica mais fácil.

Vamos por partes:

1) As mudanças corporais

Comportamentos impulsivos, desinteresse, indisciplina, rebeldia, questionamentos, problemas de relacionamento social são comentários comuns quando falamos de adolescentes.

Esse período é marcado pela transição entre a infância e a vida adulta. São grandes mudanças, e é necessário entender como estão ocorrendo as alterações física, emocional, social, moral valores e do processo cognitivo. A SBP elaborou um manual – O desenvolvimento do Adolescente -bem interessante, vale a leitura.

Todos nós passamos, ou vamos passar por este processo. É uma característica comum a todos. A ciência (viva ela!!) descobriu como se dá esse processo, e com base nesse conhecimento traçamos estratégias educacionais apropriadas.

Além dessas características típicas desta fase, os educadores ainda encontram os desafios que as diferentes particularidades de cada aluno trazem. Os adolescentes já possuem um certo repertório de vivências, experiências que influenciam o comportamento. Qual sua trajetória escolar até aquele momento, em quais condições familiares e financeiras o jovem vive. Tudo isso o educador tem que usar o feeling para conseguir “cativar” a aluno.

E para a Educação Financeira esse repertório é muito bem-vindo porque vai enriquecer o aprendizado quando o aluno juntar o seu contexto com os conhecimentos que a EF vai trazer e assim ajudar esse aluno se tornar um cidadão do mundo capaz de tomar as melhores decisões financeiras para ele.

Alguns caminhos sugeridos por especialistas para ter uma aula que cative esses alunos são:

a) Aproximar o conteúdo à realidade do jovem;
b) Dar a eles maior liberdade de escolha;
c) Interatividade entre professores e alunos;
d) Respeito por suas histórias, seus problemas, suas dificuldades e a diversidade;
e) Envolvimento em conversas significativas;
f) Compartilhamento de histórias, de exemplos reais

2) As orientações e exigências da Base Nacional Comum Curricular – BNCC no EM

A BNCC para o Ensino Médio (apesar da adolescência começar antes, vamos nos concentrar no EM) tem como finalidade entre outras:

a) “proporcionar uma cultura favorável ao desenvolvimento de atitudes, capacidades e valores que promovam o empreendedorismo (criatividade, inovação, organização, planejamento, responsabilidade, liderança, colaboração, visão de futuro, assunção de riscos, resiliência e curiosidade científica, entre outros), entendido como competência essencial ao desenvolvimento pessoal, à cidadania ativa, à inclusão social e à empregabilidade;”

b) “o aprimoramento do educando como pessoa humana, considerando sua formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. Tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa, ética, democrática, inclusiva, sustentável e solidária.”

c) “conhecer-se e lidar melhor com seu corpo, seus sentimentos, suas emoções e suas relações interpessoais, fazendo-se respeitar e respeitando os demais;”

d) “construir projetos pessoais e coletivos baseados na liberdade, na justiça social, na solidariedade, na cooperação e na sustentabilidade.”

3) A Educação Financeira nesta conjuntura

E como fica a Educação Financeira neste contexto?

Mais fácil do que se imagina, pelo fato de que a Educação Financeira – EF – acontece quando colocamos o sujeito em sua realidade, quando trazemos os conceitos ao cotidiano do aprendiz. Se, e em qualquer situação e idade, não fizermos isso a Educação Financeira não acontece.

EF é feita de experiência, de exemplos, de contextualizações, de “colocar em prática”. Afinal EF não é só matemática, é acima de tudo COMPORTAMENTO e TOMADA DE DECISÕES. Por isso o aprendizado é mais prático do que teórico. É feito com treinamento, autoconhecimento, vivência.

E jovens e adolescente (incluso adulto) amam vivência.

A EF faz parte de tudo na vida. Hoje vivemos em uma sociedade onde o dinheiro está em todas as partes para se ter uma vida minimamente digna. Da alimentação até o transporte e vestuário.

Mesmo alunos de Escola Pública, esse ensino é pago. Não por eles diretamente, mas indiretamente ao comprar qualquer coisa que tenha imposto, ele está contribuindo. Olha aí um belo tema para trabalhar. Infelizmente nada é de graça, alguém sempre está pagando. Então fica fácil trazer os conceitos para a realidade.

Vamos dar ideias de como abordar a EF de acordo com cada caminhos sugeridos por especialistas que mencionamos anteriormente:

a) aproximar o conteúdo à realidade do jovem:

Nada mais pertinente. Como vimos a EF tem que ser traduzida para o contexto do aprendiz. Ao por exemplo falar do Orçamento, não apresente um com gastos que fogem totalmente da realidade. São eles que devem construir o Orçamento de acordo com a renda e gastos da sua própria família. Este aprendizado se constrói na prática e na realidade de cada um, se não for com base no cenário atual da família não vai dar certo.

Planejamento Financeiro, metas, falar sobre aposentadoria, consumo consciente, investimento, são temas totalmente ligados a realidade de cada um.

b) liberdade de escolha;

Que tal trabalhar com Projetos!!! Quem não quer ter uma vida financeira saudável para conquistar seus sonhos? Começando a abordar a EF por este caminho o interesse despertado será grande. Começando a instigar os alunos dos benefícios que a EF vai trazer para suas vidas é um bom start. Explique todos os temas que a EF aborda (aposentadoria, investimento, conquista de sonhos, crédito, dívidas, consumo consciente, planejamento financeiro…). Dê a eles a oportunidade de escolher quais são os temas que mais se aproximam aos seus anseios, problemas

Exemplos de temas: Organizar uma festa na escola (começando pelo planejamento, fazer orçamento, precificação do evento, como será o descarte dos resíduos, uso exclusivo de material reciclado, como será o gerenciamento dos recursos e mão de obra como será a divulgação e tudo isso tem que caber dentro do orçamento,) ou um projeto para a criação de um produto ou serviço que atenda às necessidades ou solução de um problema de um bairro, da escola, voluntariado. Deixem que eles escolham o desafio e coloquem os conceitos da EF dentro.

Não esqueça de ao elaborar o projeto incluir a sustentabilidade e empreendedorismo.

c) interatividade;

Que tal começar com o professor pedindo ajuda para resolver um problema sobre o que comprar para o Dia das Mães de acordo com um orçamento predeterminado (envolve decisão de compra, reflexões sobre consumismo, estilo). Ou compartilhar experiências de compras que geraram arrependimentos – quem nunca? (comportamento, estilo de vida, reflexões sobre consumismo, direitos do consumidor são temas que podem ser abordados). Conte suas experiências – frustradas de compras e peça que pesquisem como não cair mais nessa. Tratar estes assuntos em Roda de conversa é uma boa estratégia.

Usar as dinâmicas em grupo também são boas oportunidades de interação e vivência em EF (necessidade x desejo, sonhos, mudança de hábito);

Ou trabalhe o processo decisório jogando junto o Baralho de decisões financeiras (processo decisório – e suas consequências, muito importante na EF, pois são essas as decisões que vão fazer o jovem controlar ou não seu dinheiro).

d) respeito

falar sobre sonhos, objetivos e metas é uma boa forma. Aproveite o gancho.

e) conversas significativas

Em EF o que mais tem são temas polêmicos, que gerem reflexões, discussões, significação e ressignificações e que tem tudo a ver com a vida do jovem. Use e abuse ligando com a teoria. Use o Debate 4 cantos para isso. Como na EF existem muitas questões onde não há o certo ou errado e sim aquela que seja a melhor para a realidade da pessoa ou família naquele momento, o debate que permita a troca de opiniões de todos é importante. Esse é o bacana na EF, a oportunidade de durante debates conseguir entender quais seriam as melhores decisões de acordo com cada momento, realidade. Juntamos tudo, teoria, prática, realidade, contextualização.

Sugestões de debates: Vale a pena pegar um empréstimo ou financiamento? Comprar uma casa própria é investimento? Como você se vê daqui a 60 anos? Porque compramos tantas coisas? É justo cobrar juros? Dá para viver com menos coisas? O que é ser pão-duro? Tempo é dinheiro? Porque comprar amanhã se posso comprar hoje? O que eu quero para mim? Como vou colocar em prática meus sonhos? Dá para ser consumista e ser sustentável ao mesmo tempo? O consumo consciente vai tirar a qualidade de vida? Qual o papel dos bancos no endividamento? Comprar um carro à vista ou parcelado, o que é melhor?

E a pergunta de todo mundo quer saber a resposta: Dinheiro compra felicidade?

f) compartilhamento de histórias, de exemplos reais

Aproveite as mesmas perguntas e escute a história de cada um e de outras pessoas no decorrer da história da humanidade – famosas ou não. Momento “gente como a gente”. Trazer filmes também é interessante como gatilho.

Agora em relação à BNCC:

a) proporcionar uma cultura… à empregabilidade –

aqui também segue a linha de trabalhar projetos principalmente que envolva o empreendedorismo junto, como a criação de empresa, organização de feira de objetos ou serviços criados por eles mesmo. Usar a formatura e meios de arrecadar dinheiro também é uma boa oportunidade de usar os conceitos da EF.

Visitas guiadas a incubadoras (algumas faculdades e prefeituras têm), a bolsa de valores, corretora de câmbio e de investimento, ida a shoppings e supermercados, o PROCON, visita os bancos.

Outra forma de trabalhar é com debates – veja os tópicos anteriores.

Outra forma é formar grupos e cada grupo assume o lugar do professor e comandarem a aula com o desfio de aplicarem jogos para fixação do assunto.

b) aprimoramento do educando como pessoa humana, … e solidária

Aqui vale além dos debates, trazer muitas atividades que regam reflexões como: O que o dinheiro compra e o que não. Baralho de decisões financeiras; trabalhar com dinâmicas em grupo como por exemplo “Trabalhando prioridades” é uma boa estratégia.

Aqui vale trazer essa questão do ensino público e o SUS, quem está pagando por este ensino, de onde vem o dinheiro para pagar os professores e manter a escola, quem está pagando as vacinas? Trazer toda essa dinâmica de como move a economia.

Ou ainda questionar se é obrigação do Estado oferecer tudo e relacionar com o nosso papel como cidadãos e contribuir com o voluntariado.

Para esse assunto um Simpósio pode ser boa ideia, divida o tema em subtemas.

c) conhecer-se e lidar melhor … respeitando os demais

As emoções têm uma grande influência no nosso comportamento em relação ao como lidamos com nossas finanças. Talvez seja a parte mais difícil de mudar quando queremos melhorar nossa relação com o dinheiro. São eles que moldam o nosso comportamento e faz com que as pessoas agem de forma diferente. Por isso trabalhar os sentimentos nesse sentido é muito importante.

Por outro lado, quando o jovem consegue lidar com esses sentimentos e emoções consequentemente a sua vida financeira – na vida adulta – vai ser mais saudável.

Um comportamento típico do adolescente é a impulsividade e um dos maiores problemas do consumismo é exatamente esse ímpeto de fazer compras sem pensar gerando o consumismo. Olha aí um tema!!! Assim ter controle das emoções levam a educação financeira e vice versa.

Uma forma de trabalhar é promovendo debates, realizar pesquisas com apresentações ou ainda realizar uma roda de conversa (trazendo um psicólogos ou coach comportamental) ou gravar vídeos de entrevistas com psicólogos. Tema? Quais sentimentos ou emoções interferem nas decisões de compras? Quais são os comportamentos típicos de adolescente em relação ao consumo (vontade de pertencer a um grupo, impulsividade por exemplo). Quais são as emoções que atrapalham os investidores? Quais carências nos levam a querer comprar? Trabalhar com dinâmicas em grupo também é interessante (necessidade x desejo);

Apresentar uma Peça teatral – peça que criem uma história onde diferentes personagens com emoções bem definidas possuem comportamentos específicos em relação ao dinheiro.

d) construir projetos pessoais … sustentabilidade

Uma das coisas que a EF traz é essa capacidade de pensar a longo prazo, no nosso futuro e com isso construir um plano de vida, um projeto. Buscar sonhos e concretizá-los. Como (quase) tudo na vida envolve dinheiro, provavelmente a maioria dos projetos envolvem a questão financeira. Exatamente por isso ao abordar a EF os sonhos devem entram junto.

Inclusive os nossos objetivos fazem parte do Planejamento Financeiro. Assim ensinar a usar o Método Smart para construção dos objetivos é bem enriquecedor.

Trazer atividade que falam sobre sonhos é uma oportunidade que se dá aos alunos pararem um pouco e pensarem no que querem para a vida. Existem dinâmicas em grupo que tratam dos sonhos, objetivos.

Outra atividade é o uso da planilha fazendo acontecer onde juntamente se trabalha a questão de guardar dinheiro para aposentadoria e a reserva de emergência. Aqui também dá para trabalhar com projetos que já mencionamos acima – inclusive com desfio de que a criação do produto, do serviço, a realização de uma festa, uma feira tem que atender aos quesitos ESG – governança ambiental, social e corporativa.

Vale também colocar para assistir filmes e trabalhar de forma diversa. Não faltam opções. O Lobo de Wall Street; Wall Street – O poder e a Cobiça, Um dia a casa cai, Quants: Os Alquimistas da Wall Street, O mago das mentiras, O homem que mudou o jogo e A Grande Aposta são alguns exemplos.

Ensinamento sobre Investimento, Comportamento, Tomada de decisões e suas consequências, ética em ganhar dinheiro, o que acontece quando o emocional toma as decisões, o financiamento da casa própria; a ligação entre matemática e investimento, o quanto o fator humano (comportamental) influencia as finanças.

Esses filmes envolvem a Educação Financeira com história, geografia, sociologia e filosofia. E porque não artes, língua portuguesa ou língua inglesa.

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Fontes:

BNCC  – Ensino Médio

Como Entender a Cabeça dos Adolescentes, Barbara Strauch, 256 págs., Ed. Campus, tel. 0800-265340, 45 reais

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